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Criatividade, copyright, inspiração e roubo de design

Eu tenho uma licenciatura em design de comunicação o que basicamente quer dizer que estudei e tive interesse pelas artes visuais durante grande parte da minha vida. Desde que me lembro, sempre que era pedido aos alunos para fazerem um trabalho criativo surgia a questão de ser errado copiado e que todo o trabalho deveria ser novo e original. Acho que ninguém se opõe a esta afirmação mas há um pequeno detalhe a considerar: para adquirir a técnica e experiência necessárias para criar o nosso próprio trabalho, precisamos muitas vezes de estudar e até imitar o trabalho de outros artistas como parte da aprendizagem criativa. Se isso não fosse verdade os tutorials não eram um negócio tão lucrativo.

Historicamente, os artistas começavam como aprendizes que estudavam com um mestre num determinado estilo. Aprendiam a desenhar ou pintar exactamente como o mestre. Copiavam o estilo do mestre ao ponto de por vezes ser quase impossível dizer quem tinha feito o trabalho.

Onde está o risco que não se deve passar é quando alguém decide vender essas cópias como sendo o seu trabalho, especialmente se não tiver autorização do autor original para o fazer. Os tutorials geralmente permitem que o comprador possa vender peças que fez com base nessa lição desde que mencione o nome do autor da obra e isso é perfeitamente aceitável – basicamente compramos o direito a vender aquele design feito por nós. Fora isso, é claramente errado.

Agora que estabelecemos a regra básica, vamos ao fundo da questão.

A questão é que somos todos inspirados e influenciados pelo que vemos. Acreditar que conseguimos viver num vácuo e que tudo o que fazemos vai ser absolutamente original é mentirmos a nós próprios.

Acredito que copiar, no sentido de seguir instruções de tutorials, livros ou a tentar recriar uma peça que gostamos, faz parte do processo de aprendizagem. Infelizmente quase ninguém quer admitir isto, preferindo dizer que a criatividade é algo que ou se tem ou não se tem, que até chegando ao ponto de afirmar que não pode ser ensinada.

Pessoalmente acho que isso é mentira. Conseguimos aprender quase qualquer coisa desde que tenhamos a persistência para praticar sem desistir. Grande parte de qualquer arte é técnica e muitas das técnicas usadas para fazer jóias existem há milhares de anos.

Depois, é claro, algumas pessoas têm a “inspiração” para pegar essa técnica e fazer algo maravilhoso e outros conseguem construir tecnicamente uma peça mas não criam nada de novo, de artístico. Mas isso não quer dizer que o seu trabalho não tenha valor ou que não possam usar os seus conhecimentos técnicos de forma interessante e até criativa.

As pessoas têm áreas de vocação preferencial e isso leva-as a seguir um determinado caminho. No que diz respeito à arte, muitos param porque há tanto misticismo à volta da capacidade artística. Fala-se de “musas” e “inspiração divina” o que, na minha opinião, tira importância a todo o trabalho técnico e mental por que os artistas passam.

Sim, é verdade que é difícil explicar o processo criativo, como é que chegámos a uma determinada ideia. Pode ser qualquer coisa que sonhamos ou que surge de repente quando estamos a olhar para algo. Pode surgir depois de termos pensado imenso no assunto e só se apresenta como solução quando encaixamos a última peça. E porque é tão difícil de explicar estes processos mentais, as palavras usadas acabam por soar quase religiosas e místicas.

Como designer vejo a criatividade de uma forma muito simples: É a nossa forma de resolver problemas.

Quando decidimos fazer algo, um quadro, um anel, seja o que for, somos confrontados com uma série de escolhas e problemas para resolver – cor, forma, função, materiais, etc. As escolhas que fazemos e a forma como vamos resolvendo cada problema é que formam a base do trabalho criativo.

Por isso é que há pessoas que gostam de se atirar a uma obra sem plano prévio. Há medida que vão trabalhando, vão escolhendo o caminho até estar tudo resolvido. Ao fazer um esboço podemos fazer o mesmo tipo de trabalho mas ser confrontado com uma folha branca também pode bloquear a criatividade quando pomos demasiada pressão em nós próprios para ter uma ideia fantástica logo ao primeiro risco.

Mas voltando ao assunto. Queria falar sobre a controvérsia relativa a cópias de trabalho alheio. Já disse que como exercício de treino não devíamos ter medo de copiar. Há sempre alguém cujo trabalho admiramos porque representa o ponto a que queremos chegar um dia.

Algumas pessoas, em todas as áreas artísticas, defendem que se fizermos trabalho derivativo – trabalho baseado ou inspirado por outro – que não devíamos sequer mostrá-lo a ninguém. A sério? Nem mostrar? Escondê-lo numa gaveta como se tivessemos vergonha dele? Vá lá! O design pode não ser nosso mas fomos nós que fizemos aquela versão e é natural que sintamos orgulho no que conseguimos concretizar como as nossas próprias mãos. Também vão dizer a um miúdo de seis anos que não pode fazer um desenho do super-homem porque tem copyright? Duvido muito.

Na verdade, o desenho é um bom exemplo do que estou a dizer. Alguns dos melhores ilustradores começaram como miúdos a desenhar os seus super heróis preferidos e foi assim que aprenderam a desenhar. Com o tempo desenvolveram o seu próprio estilo, muitas vezes como forma de resolver problemas no desenho que não conseguiam copiar exactamente igual. Tiveram que resolver um problema e desenvolveram a criatividade como consequência.

O caminho criativo até chegarmos a um ponto em que sabemos o que queremos fazer e como o concretizar é um processo longo e requer dedicação e persistência. Mas sem se passar por todo o processo de aprendizagem, tentativa e erro é difícil desenvolver um estilo próprio e criar algo verdadeiramente diferente. Não digo que seja impossível mas é certamente raro.

Tentar fazer algo super original logo à primeira tentativa tem tendência para gerar um trabalho decepcionante e é uma das frustrações que leva muitos a desistir antes de terem tempo de desenvolver a sua técnica devidamente.

Mas o medo de copiar pode bloquear a criatividade da mesma forma que o confronto com a folha em branco. Se estamos sempre preocupados com “será que isto é parecido com aquilo” o mais provável é nem conseguirmos começar a criar. Mais vale desenvolver o projecto e avaliar a peça de forma honesta e crítica só no final.

Também é possível trabalhar num estilo que tem pontos em comum com outros artistas sem ser “copiar”. Ao longo da história tivemos movimentos artísticos em que cada artista tinha o seu estilo mas partilhando elementos comuns e influenciando-se uns aos outros, como o cubismo, impressionismo, etc.

Hoje em dia é difícil poder dizer que se criou algo realmente novo. Tudo se desenvolve com base no que veio antes, como uma escada construída degrau a degrau. Grande parte do trabalho artístico considerado original não é mais do que agarrar nos mesmos elementos e dar-lhe uma configuração ligeiramente diferente. É na forma como se misturam os elementos que está a criatividade.

Quando falamos de jóias, em que estamos limitados por certas regras ergonómicas para que as peças sejam usáveis, os parâmetros ficam logo limitados à partida. Num design elaborado será mais fácil mostrar originalidade e assinar o trabalho como nosso mas as peças mais simples e básicas são algo que muitos fazem igual, mesmo sem copiar. É apenas a solução mais óbvia para um problema específico.

Mesmo assim, se fizermos trabalho baseado na obra de outro artista sinto que no mínimo convém mencionar as nossas influências. Se os pintores e os músicos o fazem naturalmente, porque não será tão natural na joalharia e outras áreas artísticas? Pertencemos a uma comunidade e dar valor aos artistas que admiramos faz todo o sentido.

Mas em certas áreas, como wire wrapping, vejo muitas vezes pessoas a acusar-se umas às outras e a recusar-se a partilhar o conhecimento técnico com medo que alguém copie porque vendem tutorials e como tal, alguém que ensine de graça é uma ameaça. As pessoas são tratadas como criminosas sem razão e há discussões mesquinhas e francamente tristes. Tudo isto porque se alguém mostra as costas da peça lá se vai o segredo.

É claro que podemos guardar alguns dos nossos segredos para quem está disposto a pagar por isso, todos precisamos de pagar as contas, mas sinto que não há necessidade de atacar aqueles que apenas querem aprender e que se calhar ainda não conhecem bem as regras porque começaram à pouco tempo. É possível educar sem insultar e sem cortar as pernas criativas de quem está a começar.

O problema é que há sempre o risco de aparecer alguém sem escrúpulos que rouba o nosso design, reproduz, faz montes de dinheiro e o designer original não ganha nada. É triste que seja preciso tentar prevenir estas situações e quanto mais sucesso se tem maior o risco de isso acontecer. Mas este medo reduz a vontade de ensinar aqueles que têm um sincero desejo de aprender.

Eu aprendi com livros, tutorials e professores e dou crédito sempre que posso. Não vou porém deixar de dormir porque uma peça que fiz lembra vagamente algo que vi uma vez. São tudo passos a caminho de desenvolver o meu estilo. Não estou a tentar duplicar o trabalho de ninguém e as peças que faço baseadas noutras são para aprender detalhes técnicos. Experimentar uma vez para ver como é antes de fazer outra coisa, usar as técnicas noutra peça completamente diferente para ver como fica.

O truque é avançar passo a passo, não negar as inspirações mas sentir-nos livres para explorar, sem medo de experimentar porque é aí que nasce a faísca da criatividade.

Imagem: pixabay.com

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